Governo erra ao não considerar mão de obra imigrante em frigoríficos

(Foto: Getty Images)

WASHINGTON – Além de enfrentar a pandemia do novo coronavírus, o consumidor americano está sendo penalizado pela falta de políticas estruturais do governo que não soube manter trabalhos vitais.

A falta da carne vai ser a marca deste erro. Apenas em Nebraska, 12 frigoríficos com quase 20 mil funcionários foram afetados, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) do governo americano.

Imigrantes estão entre os mais expostos ao coronavírus: são 66% dos trabalhadores em frigoríficos do estado, segundo o Immigrant Legal Center.

O problema em frigoríficos, no entanto, não se restringe à Tyson Foods ou a Nebraska. Outras gigantes da produção de proteínas, como a Smithfield e a brasileira JBS, também vêm enfrentando surtos de coronavírus por todo o país.

No Colorado, segundo o sindicato local dos trabalhadores da JBS, sete funcionários já morreram e 285 testes tiveram resultado positivo. A presidente Kim Cordova, que representa três mil funcionários, afirma que a empresa só testa pessoas com sintomas, mesmo que a Casa Branca tenha enviado recursos para que todos os trabalhadores fossem testados.

Segundo o CDC, 115 frigoríficos em 19 estados já relataram problemas. Além de Colorado e Nebraska, estão na lista dos estados mais afetados Delaware, Georgia, Iowa, Pensilvânia, Dakota do Sul e Wisconsin. Entre os 130 mil trabalhadores nessas fábricas, foram confirmados quase 5 mil casos e 20 mortes.

Quase 30% dos trabalhadores em fábricas de processamento de comida nasceram fora do país, segundo o centro de pesquisas New American Economy. São 500 mil imigrantes.

Na indústria de processamento de carnes, eles são metade dos funcionários. Apenas na fábrica da JBS em Greeley, no Colorado, 30 idiomas são falados. Boa parte desses imigrantes são latinos, grupo populacional que acaba se expondo mais ao coronavírus. Apenas um em cada seis deles tem trabalhos que podem ser feitos a partir de casa.

“É um privilégio poder fazer distanciamento social e ficar em casa”, diz Sindy Benavides, da LULAC. “A nossa comunidade não tem esse privilégio. Ela tem que deixar suas casas para trabalhar. E, graças a ela, os Estados Unidos continuam funcionando, porque nós somos os trabalhadores essenciais”.

O jornal The Washington Post afirma que a própria Tyson Foods revelou que a produção de carne de porco nos EUA caiu pela metade. A rede de fast food Wendy’s ficou sem hambúrgueres em centenas de restaurantes. Um anúncio de página inteira no The New York Times da Tyson no dia 27 de abril dizia: “A cadeia de suprimento de alimentos está quebrando”.

Dois dias depois, o presidente Donald Trump decidiu usar uma lei da época da Guerra da Coreia para obrigar os frigoríficos a continuarem funcionando em meio ao surto. O decreto classifica o processamento de carne como “infraestrutura crítica”.

Kim Cordova, do sindicato no Colorado, afirma que a decisão protege as empresas de processos trabalhistas.

“Muitos desses trabalhadores não têm licença médica remunerada. Agora que as fábricas são forçadas a ficarem abertas, se eles ficarem assustados em voltar ao trabalho não poderão receber seguro-desemprego. Eles têm que tomar decisões difíceis, entre devastação financeira ou ir ao trabalho e potencialmente morrer ou passar o vírus para suas famílias”, conclui Cordova.

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